Pular para o conteúdo principal

HAITI: O pais caribenho soterrado pela miséria, violência e agora pela desgraça estrutural

Meu país é doença em seu coração, todas as pessoas que têm no meu país vivem na rua – Jean Marc Fantaisie - 20 anos
(Jovem haitiano, que reside na cidade de Jérémie, também conhecida como “A Cidade dos Poetas”. Jérémie é uma cidade rural do Haiti).



O Haiti é um país caribenho que se localiza no leste da América Central. Em 1492, os espanhóis ocuparam somente o lado oriental da ilha - atualmente República Dominicana – onde todos os índios da região foram mortos ou escravizados. Já o lado ocidental da ilha, onde hoje se localiza o Haiti, foi cedido aos franceses em 1697. Estes, por sua vez, passaram a cultivar cana de açúcar e a utilizar mão-de-obra escrava oriunda do continente africano.
Em 1804 negros e mulatos haitianos travaram uma luta feroz contra os colonizadores franceses, que ficou conhecida como uma guerra de libertação nacional. Este movimento anti-racista e anti-colonial foi liderado pelo ex-escravo Toussaint L”Ouverture e, logo mais tarde, sob o comando de Jacques Dessalines. O objetivo da revolução era a conquista da independência e a conseqüente libertação do sistema escravocrata. Pela primeira vez na história da humanidade uma colônia negra obtém a abolição da escravatura.
Apesar da história de bravura e das conquistas históricas, o Haiti sempre sofreu de uma instabilidade sócio-política, que se insere no mundo atual como uma patologia crônica da ordem social. Golpes políticos, revoluções, ditaduras, miséria, violência entre negros e mulatos, carência de estruturas públicas dignas para a sobrevivência básica de qualquer ser humano, escravidão infantil, entre tantos outros fatores, fazem do Haiti, o país mais pobre das Américas, tornando-o assim, um dos países que mais necessita da solidariedade e da cooperação humanitária.
O Estado brasileiro atua contribuindo no Haiti como um forte ator nas mediações de conflitos e reestruturação na recuperação política do país. A ingerência solidária do Brasil no Haiti, integrando a MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti), e de todos os outros países, foi certamente um marco nas relações internacionais, uma vez que os propósitos da carta das Nações Unidas foram traçados num exemplo mundial de multilateralidade.

O Exército brasileiro trabalha aguerridamente não só na estabilização da paz, como também, desempenha um importante papel nas questões estruturais e de engenharia no Haiti. São os militares brasileiros contribuindo excepcionalmente na vida de milhares de haitianos. É um novo Exército brasileiro que marcha com o seu povo e com os outros povos, em um novo modelo representativo, carregando como propósito não um modelo de guerra, mas um modelo de paz.

Compondo o projeto de pesquisa Brasil-Haiti: Um novo olhar sobre um novo Haiti, coordenado pelo professor Ricardo Seitenfus, estivemos no Haiti em março de 2008, com a finalidade de acompanhar as principais necessidades dos haitianos, de forma que pudéssemos colaborar cientifica e politicamente na reestruturação do país. Desses resultados, as nossas preocupações foram de todas as ordens, tendo em vista que constatamos a miséria numa vivência propriamente desumana - já que as necessidades básicas como água, luz, esgoto e alimentos são praticamente ausentes no território. Temos que sobressaltar ainda o sistema de cárcere, que estava fora do limite da sobrevivência humana e ainda, a terrível escravidão infantil popularmente conhecida como o fenômeno Restavec’s , que vitimiza cerca de 300 mil crianças haitianas.

Em continuidade a uma ação de comprometimento social e político à esse povo, o professor gaúcho coordenador do projeto, foi indicado pelo governo brasileiro para ser o primeiro representante especial no Haiti do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). Dentre os seus trabalhos, está o de organizar e acompanhar as eleições que iriam acontecer este ano, realizar projetos sociais que atinjam as questões de gênero e de discriminação e colaborar na cooperação efetiva da política externa brasileira.
Na última terça-feira, dia 12 de janeiro de 2010, o Haiti foi atingido por uma catástrofe, que assolou a capital haitiana - Porto Príncipe - e que atingiu um povo que não merecia mais suportar quaisquer formas de dor. Os jornais de todo o mundo anunciaram que o terremoto teve magnitude de 7.0 graus na escala de Richer com uma força equivalente à de 30 bombas nucleares de Hiroshima. Foram destruídas as principais estruturas edificadas da capital haitiana, como o Palácio Presidencial, hospitais, hotéis, o prédio da ONU, a catedral, as escolas, além das favelas. Imagino como devem estar àquelas casas tão frágeis, sustentadas não sei pelo o quê, onde o espaço de uma única peça, era disputado entre a família na forma de rodízio – este talvez seja um pressuposto para compreender o intenso movimento humano nas ruas haitianas até mesmo na madrugada. Não me parece difícil imaginar o desespero de qualquer ser diante de um terremoto, mas este não foi qualquer terremoto e nem estava destruindo qualquer país. Tal catástrofe estava sufocando logo àqueles que buscavam a luz no escuro e a independência organizacional própria.

O Haiti retrocede a sua linha do tempo, e toda a colaboração humanitária, seja da MINUSTAH, da OEA, das congregações religiosas ou das organizações não governamentais terão que começar muito antes do zero. Certamente viverão momentos de tensões diante das novas revoltas e protestos que já estão surgindo. Os sobreviventes da catástrofe estão com fome, estão com sede, estão vagando a sós entre os mortos empilhados nas ruas. Alguns cavam com as próprias mãos entre os escombros na esperança de encontrar os seus entes queridos, outros já sentiram a derrota e carregam no colo as vítimas do holocausto. É desesperadora a situação por que passam os haitianos.

Gritar? Chorar? Correr? Rezar?

O que mais resta ao Haiti? Como confortar tamanha dor alheia que vaga no meio do pó e da incerteza?

Os trabalhos para resgatar tantas pessoas sob os escombros desta tragédia serão árduos e, sobretudo será importante mapear de forma rápida e eficaz, contribuições estruturais visando distanciar o país de um modelo pré-histórico. A deficiência estatal está impossibilitando a comunicação com os haitianos, o trabalho de cooperação externa que estava sendo feito lá terá que recomeçar da forma mais inteligente possível, de forma a evitar que mais seres humanos morram de dor, fome, sede e desespero.

RMLondero

Comentários

  1. Fico orgulhosa de ter vc como uma contribuidora à essa nação. Mesmo soterrada ela se valerá da força latente, e com o altruismo que é peculiar dos povos guerreiros, ela se levantará, e novamente com solidariedade e amor se erguerãO as estrutras,e nem podes saber se esse povo te esquecerá um dia...porque o que se diz com o coração atravessa a todas as catástrofes.
    Parabéns filha! Lindo artigo!

    ResponderExcluir
  2. Uau!
    Você escreve bem pra caramba! Parabéns!!!

    Quanto ao Haiti, pode ser que soe mesquinho da minha parte, mas o povo brasileiro está sofrendo há décadas por fome, violência, falta de educação e saúde precária. Quando vamos acordar e enxergar que nosso próprio país está desmoronando?

    ResponderExcluir
  3. Parabéns pelo Blog, suas palavras são profundas e nos fazem pensar no rumo que damos às nossas vidas e a importância de nossas ações. Creio que rezando muito e canalizando forças ao povo haitiano, poderemos ajudar para que a esperança nunca sucumba naqueles corações, além de muito trabalho duro...

    ResponderExcluir
  4. Terrível a tragédia no Haiti! Suas palavras são fortes e comoventes.
    Vamos apostar numa "nova" cooperação aos haitianos e que a dor deles possa ser sentida por "Raíssas" de todo o mundo...

    Diego Vargas

    ResponderExcluir
  5. McFake!

    Algumas considerações sobre a participação do Brasil no Haiti:

    - O Haiti sofre de uma crise securitária antes de ser política. Tal crise é provocada pela miséria, pela ausência de Estado,pela ausência de um sistema jurídico e institucional eficiênte...entre tantas outras características que comprovam o quanto o povo haitiano necessita de uma COOPERAÇÃO de fato em nome dos Direitos Humanos. Temos como exemplos alarmantes, a escravidão infantil que atinge cerca de 350 mil crianças haitianas, 80% da população ativa está desempregada, dos 3.341 detentos da Penitenciária Nacional estavam condenados somente 112, os outros tantos estavam em detenção provisória prolongada...
    Fora outros tantos quesitos de atuação internacional em que o nosso país vem ganhando credibilidade externa, poderíamos citar o projeto do IBAS, cooperação Sul Sul...{merecedores de outros capítulos)

    ResponderExcluir
  6. Incrivel como se pode traduzir uma dor, um desejo desencontrado ou desconstituido por escombros e metal retorcido...

    Se tuas palavras magistrais não aplacam a angústia que sinto no peito, pelo menos me reportam ao tempo que estive na frente de batalhas ao teu lado. Melancolia e saudade!!!!

    Nunca abandone este dom, a escrita, pois ela nunca te abandonará!

    Parabéns...

    ResponderExcluir
  7. Você escreve muito bem mesmo, darei sempre uma passadinha no seu blog!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Veja esta: Oportunidades disfarçadas nas crises

Início dos ano 1930. O mundo vivia uma destruição de riqueza sem precedentes: entre 1929 e 1933, o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos encolhera 45%. milhares de empresas fecharam as portas. Bancos, indústrias e negócios rurais reduziram drasticamente suas operações. Um em cada quatro trabalhadores perdeu o emprego. Mais de 12 milhões de americanos foram colocados na rua.
Em meio a essa turbulência, nos arredores da Peninsilvânia, o engenheiro Charles Darrow era uma das vítimas do desemprego. Confinado em uma casa sem nada para fazer, ele tentava distrair os filhos contando histórias e improvisando brincadeiras.
Certo dia, Charles recordou um passatempo interessante que havia conhecido no trabalho: um jogo divertido mas com regras complexas que simulava negociar imóveis por valores fictícios. Pensando em entreter as crianças enquanto a esposa preparava a refeição, ele começou a desenhar na toalha de mesa uma cidadezinha, com casas e prédios inspirados nas contruções da vizinhanç…

Reticências

Cheguei em casa ontem com uma sensação de pertencimento tão forte como a que somos capazes de sentir quando fazemos uma criança sorrir em um cenário de dor ou de tristeza. O dia estava nublado e eu estava esgotada, exausta, mas quando eu vi brilhar a presença dele o meu coração acelerou em disritmia.
De fato, aquela luz foi o que inaugurou o encanto, imagino que a sensação seja a mesma de estar em Paris, sentindo toda a elegância e a sedução daquelas Ruas poéticas e daquele ar familiar e deslumbrante. Sem previsibilidades ou pretensões e, simplesmente surpreender-se com a cintilância daquele pertencimento mágico e inominável.
Também já imaginei tomar um café com ele no mesmo lugar onde Beauvoir e Satre haviam se encontrado outrora.
Tive vontade!
Meus dias em São Paulo me levaram a percorrer caminhos novos e desconhecidos. No início fiquei um pouco atrapalhada com a velocidade de tudo e com poucos lugares tranqüilos para ficar, mas hoje procuro palavras para expressar a minha plenitude …